personal
Querida mamã
Querida mamã,
Hoje acordei nostálgico. Cheguei demasiado cedo ao trabalho e enquanto esperava que alguém chegasse para abrir a porta, fiquei a navegar em memórias nossas de quando viajávamos em família e as coisas engraçadas que aconteciam e pessoas que conhecíamos. Disso tudo deu-me uma saudade das manas que enviei-lhes logo uma mensagem. No fundo do olho tinha uma lágrima, mas estava um dia belo e tinha trabalho excitante para fazer, então sorri e continuei o meu dia. Depois do trabalho ia a caminho de casa e o teu neto enviou-me as mensagens de voz mais lindas que possas imaginar. É tão belo ouvir a voz de um filho a chamar por ti e dizer que te ama, agora percebo-te ainda mais. Estava tão babado que fiquei a ouvir em repeat sei lá quantas vezes e o tempo no trânsito voou e o engarrafamento passou como se nada fosse. Ele está enorme, e anda tão malandrinho. Ias te divertir muito a brincar com ele. Ele tem um sorriso tão fofo e maroto ao mesmo tempo, que é impossível fazer cara de sério quando se quer chamar a atenção. Ao chegar a casa fui recebido pela típica corrida, grito e um abraço gigante e de seguida contou-me um pouco do dia dele. Passados uns momentos, por algum motivo, ele lembrou-se de um dos vídeos que tu enviaste para ele e pediu para ver. “Queres a vóvó” disse ele. “Olá meu filhote”, que é como tu começas um dos vídeos. Eu faço esforço para falar de ti naturalmente e manter a memória viva nele e não me importo que ele veja os vídeos, por mais que seja um atrás do outro. Mas hoje foi difícil. Assim que pus fiz um esforço enorme para me compor. Não sei se consegui disfarçar muito bem, mas não foi nada comparado com o que veio a seguir. Depois de ler uma história de boa noite, ele pediu-me para deitar ao lado dele até que adormecesse. Durante esse tempo vieram-me bastantes memórias de abraços, danças e beijinhos que tivemos e um aperto enorme no peito que não consegui mais me conter. Chorei. Chorei muito. Chorei tanto e ao mesmo tempo a esforçar para ser em silêncio para não o acordar. Desde o dia que morreste, nunca tinha chorado tanto como hoje. Tenho-me dito a mim para ser forte, faço um esforço para lembrar as coisas positivas e tentar largar a dor. Tento lembrar de coração cheio em vez de vazio, para não cometer o mesmo erro quando foi com o pápá. Mas nem sempre é possível. Foste, mas muito de ti ficou em mim. É uma pena não poder mais partilhar momentos contigo e não teres aproveitado muito o teu neto, mas sei que estarias orgulhosa de mim e dele neste momento. Te amamos. Até um dia